Uso da Tribuna Livre rende discussão na Câmara; jovem critica vereadores e tumultua a sessão

Política 31 maio / 2019 às 20:04

Parte dos vereadores de Iperó protagonizaram uma discussão com um munícipe que utilizou da tribuna livre para criticar o legislativo. Gabriel Andrade, que trabalha em uma instituição bancária da cidade, se inscreveu para falar de políticas públicas, mas acabou tecendo comentários negativos sobre a atuação dos parlamentares e inclusive da Prefeitura, o que acabou gerando indignação.

“Venho ser um porta-voz de esperança. Esperança de um futuro melhor, com mais saúde, educação e tudo aquilo que uma cidade precisa para se desenvolver e combater as desigualdades”, disse. “Somos um grupo composto por munícipes do bem, que moram em Iperó e estão cansados de ouvir de tanta corrupção e descaso que beira nosso País”.

Entre os comentários negativos, Gabriel citou a votação do veto que o Executivo encaminhou à Câmara em relação ao projeto de lei que obrigaria a Prefeitura a informar um cronograma de obras que seria realizada durante o ano. A lei, apesar de aprovada na Casa, era inconstitucional e recebeu o veto, que foi acatado pelos vereadores. “Como primeiro ato desse grupo, gostaria de manifestar o repúdio a todos os vereadores que votaram a favor do veto a respeito do cronograma de obras. Vocês não foram amigos do povo. Não havia motivo plausível e vocês não justificaram seus votos. Vocês se esconderam atrás do voto, sem sequer falar o porquê”, reclamou. O jovem, ainda, disse representar um movimento de pessoas que estão à disposição dos vereadores para ajudar a identificar as demandas do município.

O jovem, no entanto, não citou o nome do movimento, mais um ponto de indignação entre os vereadores. Angelo Valário (PTB), inclusive, pediu uma questão de ordem para o presidente da Câmara, Fernando Daki (MDB), para que o interlocutor dissesse qual grupo representava, mas Daki concedeu que o munícipe terminasse seu discurso, para depois os vereadores se manifestarem.

 

Reclamações

Diversos vereadores reclamaram do comportamento do rapaz. Ângelo Valário foi o primeiro a usar a tribuna para lembrar que participou da criação de associações na cidade. “Foram grupos instituídos, com CNPJ. Agora, ele vem em nome de pessoas que a gente nem sabe quem são”, ressaltou. Ainda sobre a votação do veto do Executivo, o parlamentar explicou que o projeto era inconstitucional. “Em vários municípios, esse projeto sofreu ADIN [Ação Direta de Inconstitucionalidade], porque é intervenção do Legislativo no Executivo, e não pode. Está errado”, ressaltou. “Se ele [o prefeito] tiver que, no começo do ano, apresentar o cronograma, ele vai estar engessado, e até nós iremos. Como a gente vai apresentar indicações?”, questionou.

“Ninguém aqui é bobo. Ninguém entrou de graça aqui. Foi através de campanha, apresentando os projetos, e nosso voto tem que ser respeitado. É inadmissível que alguém conteste nossos votos. Que venha aqui um grupo coeso de fato. Será que esse grupo representa quem divulgou o WhatsApp falso?”, lembrou, ainda, Valário, referindo-se ao caso do compartilhamento de uma conversa por meio do aplicativo WhatsApp que indicava o pagamento de propina na Câmara, no entanto, de acordo com investigações da Polícia Civil, as imagens eram falsas. “É inadmissível que venha aqui tumultuar os trabalhos da casa, para defender um sujeito ordinário, que divulgou mensagens falsas na internet. Foi comprovado já. Isso vai ser esclarecido na Justiça”, disse, ainda, o parlamentar.

Benildo Santos Ribeiro (PV) também usou a tribuna. Ele, no entanto, utilizou um tom mais brando para falar dos assuntos levantados pelo jovem. “Quero parabenizar o jovem Gabriel, pela sua coragem. Como em qualquer democracia, todo cidadão tem direito a se manifestar. É verdade que as manifestações podem não agradar, mas isso é a democracia. Por isso, não vejo motivo para tanto nervosismo”, salientou. Benildo ainda reforçou que a Casa errou ao aprovar com unanimidade a lei que foi vetada, e traçou um paralelo entre a política iperoense com a política nacional. “Nós vemos um parlamento federal condicionando o presidente. Medidas Provisórias perdendo validade, por um parlamento tentando condicionar um presidente legitimamente eleito. Não podemos chegar a esse mesmo ponto. Tenho certeza que essa Casa não será uma Casa condicionada e nem condicionará também o prefeito. Onde tem condicionamento, não tem desenvolvimento”.

Benildo, ainda, ao fim do seu discurso, fez um pedido aos colegas parlamentares. “Tentem cuidar dos projetos que aprovarem, dê vida a eles. Isso faz parte do êxito do nosso trabalho. Cuidem dos seus projetos, para que eles não venham a morrer. Não estamos aqui para aprovar projeto, para que ele seja esquecido”.

 

Envolvimento político?

Foi Sérgio Poli, no entanto, quem fez as críticas mais duras à fala do jovem. Além de citar inúmeras ações da Prefeitura – como a nova Unidade Básica de Saúde (UBS) de Campos Vileta, ações de recapeamento e regularização de residências – o parlamentar criticou a antiga gestão do Executivo. “Tivemos, na gestão passada, R$ 16 milhões de dívidas do INSS e R$ 3 milhões de dívidas com a Sabesp. E hoje, estamos vendo nos bastidores da Câmara, conversas de pessoas ligadas ao grupo dizendo que temos que ir para o PSDB. O PSDB afundou Iperó”, destacou.

O vereador falou também sobre Gabriel. “Ele é jovem ainda, gerente do Santander, tem várias… todas as contas dos funcionários públicos municipais estão no Santander. Será que a gerência vai gostar?”, perguntou o parlamentar, que foi interrompido pelo Gabriel com a pergunta: “Isso é uma ameaça Poli?”.

Sérgio Poli também evidenciou que Gabriel seria parente do suposto autor das mensagens falsas disparadas por WhatsApp. “Não é meu parente que ficou acunhalado [sic] com uma raça para tentar desmoralizar a ética deste vereador, do vereador Nenão [Angelo Valário] e do doutor Eli [secretário de Saúde]. Isso sim é desrespeito”. Neste momento, Gabriel se levantou e protestou. “Não tenho nada a ver com parente meu” e, chamando o parlamentar de “covarde”, disse: “olhe para mim, se você é homem”. Com isso, Fernando Daki teve de pedir diversas vezes para que os ânimos se acalmassem, e que a palavra de Sérgio Poli fosse assegurada. O parlamentar finalizou dizendo que a manifestação pertencia a um grupo político. “Ano que vem será provado por A mais B que vários desse grupo estão saindo candidatos a vereador”.

Daki encerrou a sessão pedindo que o regimento interno da Casa seja cumprido. “Gostaria que tivesse essa participação sempre. Infelizmente existe alguns temas que é natural que exista o contraditório, mas cabe a cada um de nós respeitar o posicionamento contrário. O que a gente não pode aceitar é essa falta de respeito com relação ao que vem acontecendo aqui nessas sessões. Esse presidente é cobrado pelos vereadores, durante a sessão e depois, para conseguir manter a ordem e o cumprimento do regimento interno. Precisamos da compreensão de todos”. Ao final da sessão, Gabriel não quis dar entrevista.


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